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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Crise climática. Déficit no debate


O tema, entretanto, que manifesta maior déficit entre os entrevistados é acerca da pouca ou inexistente criticidade ao modelo em curso e seus impactos ambientais. Aqui, a sensação que se tem é que os entrevistados não consideram o tema relevante. A leitura de que o mundo está confrontado com uma crise estrutural e não somente conjuntural e de que as crises econômica, ecológica, alimentar, energética são manifestações de uma crise maior, uma crise de modelo de desenvolvimento de tipo civilizacional – particularmente da sociedade capitalista – se organizar passa ao largo das análises.

Reiteradamente as análises de conjuntura aqui publicadas têm chamado a atenção para aquilo que se considera um tema da maior grandeza mundial: a crise climática. Temos destacado, a partir de inúmeras análises que o planeta Terra dá sinais cada vez mais reiterados e evidentes de esgotamento. Os sistemas físicos e biológicos alteram-se rapidamente como nunca antes aconteceu na história da civilização humana. Alertamos para o fato de que é o tipo de desenvolvimento econômico implantado, especialmente, ao longo dos últimos dois séculos, baseado no paradigma do crescimento econômico ilimitado, na ideia de progresso infinito e na concepção de que os recursos naturais seriam inesgotáveis e de que a nossa intervenção sobre a natureza se daria de maneira neutra, que se encontra a razão do impasse que vivemos.

Quando olhamos o Brasil e o seu processo de reestruturação do capitalismo percebe-se uma distância enorme com essa preocupação. Em tese, existe na retórica, mas está ausente na prática. O governo brasileiro está absolutamente convencido de que o seu papel é induzir o crescimento da economia, função que exerce através do binômio “Estado financiador” e “Estado investidor”, conforme indiretamente atestam os entrevistados. A reestruturação do capitalismo brasileiro não leva em conta a crise maior: a crise climática.

Quando esse tema é confrontado com as entrevistas, depreende-se que os entrevistados permanecem presos à lógica do capitalismo industrial – a obsessão pelo crescimento econômico. É incontestável que o PAC é refém de um modelo de desenvolvimento preso ao século XX porque se coloca de costas para a problemática ambiental e reafirma a lógica produtivista da sociedade industrial. Exatamente no momento em que se fala em descarbonizar a economia [basta pensar no esforço de Copenhague], o país reafirma um modelo tributário ainda da Revolução Industrial. Que alguns entrevistados não concordem com essa interpretação é natural, porém, afirmar que “esses ambientalistas que combatem hidroelétricas deveriam ser levados pelo governo a visitar Itaipu, uma das maravilhas da engenharia brasileira”, como afirma Kucinski é desqualificar a crítica dos que se contrapõem ao modelo e elevar uma obra de enormes impactos ambientais – submersão das Sete Quedas – e sociais a “maravilha” do mundo. Só mesmo numa visão economicista isto é possível!

Bernardo Kucinski está entre aqueles que não veem sentido nos protestos e críticas ao governo Lula de anti-ambiental. Falando sobre o PAC, considera que “não vai na contramão da crise ecológica”, e afirma: “uma das maiores contradições desse tipo de ambientalismo é a condenação da energia limpa e barata gerada pelas hidroelétricas quando – objetivamente – a alternativa é a termelétrica, esta sim, das mais caras e poluentes. As hidroelétricas, além disso, regulam a vazão das águas, reduzindo a frequência e as severidades das enchentes e das secas, garantem o abastecimento de água, criam reservas turísticas, de lazer, de pesca e de navegação. Esses ambientalistas que combatem hidroelétricas deveriam ser levados pelo governo a visitar Itaipu, uma das maravilhas da engenharia brasileira. Eu amo as hidroelétricas bem construídas”, afirma ele. Ou seja, reduzir o debate à escolha entre apenas duas fontes energéticas.

Ladislau Dowbor está entre os que minimizam a problemática ambiental. Segundo ele, “os nossos grandes problemas ecológicos são basicamente as queimadas e o péssimo uso que fizemos de recursos de transporte”. Segundo ele, “nós temos uma matriz energética basicamente limpa, e temos uma perspectiva de bicombustíveis que não pressionam cereais, porque é baseado em cana-de-açúcar, que exige, em termos de território, espaços bastante limitados. Temos muitos espaços a ocupar, somos a maior reserva de terra parada no planeta. No conjunto, o país está evoluindo muito bem”. Dowbor vai mais longe ao afirmar que “lutar com muita força contra as hidrelétricas não é de bom senso”.

Poder-se-ia, nesse sentido, afirmar que em nome de um progressismo de esquerda, alguns autores tornam-se conservadores porque refutam o debate sobre a emergência da crise climática. Destacamos aqui as análises de José Eli da Veiga, Washington Novaes, Ricardo Abramovay, intelectuais que talvez nem se arvorem como sendo de esquerda, mas que estão sintonizados com a nova agenda mundial, e nesse sentido contribuem para o debate dos novos desafios que surgem nesse início de século.

O Brasil está atrasado

O economista José Eli da Veiga em uma recente entrevista ao IHU comenta que o Brasil está perdendo o bonde da história, exatamente por uma visão obtusa de desenvolvimento. Comentando a Conferência de Copenhague, ele afirma: “A importância que eu dou para Copenhague não é tão grande. A transição ao baixo carbono está em curso faz tempo e independe de Copenhagen. Os países que mais rapidamente perceberam que em vez de um problema, uma restrição, isso é uma grande oportunidade para uma nova etapa do capitalismo, já estão há muito tempo investindo em ciência, tecnologia e inovação. Assim, eles possuindo essas tecnologias que poderão ser a solução, terão as oportunidades de negócio. Isso está ocorrendo e vai continuar ocorrendo, seja qual for o resultado de Copenhague. E os países emergentes, como o Brasil, que ficaram nessa linha obtusa de resistência, não investindo em ciência e tecnologia com prioridade, não terão essas tecnologias e continuarão tendo que discutir essa questão de como vão comprar tecnologia dos outros através da tal transferência de tecnologia”.

Segundo Eli da Veiga, “na verdade, o que está ocorrendo é uma tremenda corrida pelas tecnologias, que poderão levar à superação da era fóssil. E outra vez serão os mesmos países que fizeram a revolução industrial que vão levar a melhor nessa. E os países emergentes agiram de uma forma totalmente errada até agora, perdendo a oportunidade de mudar esse jogo”.

O economista afirma que na questão do clima especificamente, infelizmente, o Brasil está atrasado e faz uma dura crítica às elites brasileiras: “As elites brasileiras, em geral, estão absolutamente cegas. Elas estão fazendo a mesma coisa que fizeram no século XIX com a questão fundiária, e no século XX com a educação. Não há foco no Brasil em relação à ciência, à tecnologia e à inovação. E isso é um atraso. O Brasil não será um país desenvolvido neste século se continuar nessa perspectiva”.

O economista faz um alerta: “Não dá mais para fazer essa separação [da economia com o meio ambiente]. Diz ele: “As pessoas que continuam a separar economia e meio ambiente não entenderam nada. Há duas questões no mundo hoje em termos de décadas e em termos de século XXI e, ou o Brasil se insere nisso ou está perdido. Essas duas questões são: o aquecimento global e a ressurreição da China. O Brasil tem que ser competitivo, mas, ao mesmo tempo, com sustentabilidade ambiental”.

Washington Novaes também contribui com esse debate ao alertar que o Brasil se encontra numa encruzilhada histórica que pode ser decisiva para o futuro de nação soberana e um ganho comparativo mundial. Segundo ele, “um país que tem a biodiversidade que o Brasil tem, os recursos hídricos, a insolação o ano todo, enfim, com a riqueza que o país tem, deveria ter uma estratégia que colocasse esse fator escasso no mundo numa posição privilegiada como base de políticas. Mas essa estratégia não existe”.

Que tipo de crescimento econômico queremos?

A grande questão posta hoje é que tipo de crescimento econômico queremos? Por muito tempo, inclusive na esquerda, acreditou-se que o crescimento econômico seria a varinha de condão para a resolução de todos os problemas. Particularmente da pobreza. A equação é conhecida. O crescimento econômico produziria um círculo virtuoso: produção-emprego-consumo. Porém, o axioma de que apenas o crescimento econômico torna possível a justiça precisa ser complexificado. Será que o grande projeto brasileiro é transformar todos os cidadãos em consumidores?

É preciso complexificar o debate. Por isso temos insistido no princípio da “ecologia da ação” de Edgar Morin como um princípio orientador para um projeto de sociedade. Segundo Morin, “desde o momento em que um indivíduo empreende uma ação, qualquer que seja ela, esta começa a escapar de suas intenções. Ela entra num universo de interações e finalmente o meio ambiente apossa-se dela num sentido que pode tornar-se contrário ao da intenção inicial. Com frequência a ação retorna em bumerangue sobre nossa cabeça”. O que Morin quer dizer é que toda ação implica em efeitos nem sempre controláveis e que mesmo uma ação realizada com o melhor dos propósitos, pode fugir ao controle e voltar-se contra o objetivo inicial.

O princípio da “ecologia da ação” destaca que doravante toda e qualquer ação deve estar subordinada ao imperativo da crise ecológica, ou seja, faz-se necessário que tenhamos presente o fato de que tudo aquilo que realizamos tem consequências, e sob esta perspectiva urge presumirmos os possíveis efeitos colaterais de nossa ação. A “ecologia da ação” vale ainda mais para as decisões institucionais, particularmente aquelas do mundo dos negócios e do Estado que possuem repercussão maior sobre o conjunto da população e do meio ambiente.

A “ecologia da ação” questiona o atual paradigma civilizacional produtivista-consumista e remete para a necessidade de uma outra economia, outro estilo de vida, outra civilização, outras relações sociais e com o meio ambiente. Faz-se necessário um paradigma que rompa com a racionalidade técnico-instrumental instaurada pela modernidade. Aqui, tanto a direita como determinada esquerda não estão à altura da tarefa exigida. Tanto o liberalismo como certa leitura dogmática do marxismo repousam sobre a noção de um progresso infinito, e repetem exaustivamente o mantra do crescimento. Até mesmo parcela significativa do movimento social é tributária de um jeito de pensar e agir preso às categorias da sociedade industrial, e daí a dificuldade de assimilação em sua agenda de temas que estão para além dessa sociedade.

Propostas simplificadas e descontextualizadas que reproduzem o receituário keynesiano e marxista – matrizes teóricas de outro momento histórico – não nos ajudam a sair da crise, porque são mais parte do problema do que da sua solução, uma vez que bebem na mesma fonte: o desenvolvimento/crescimento econômico como saída para a crise.

Agora, urge a consciência de que a crise ecológica é, antes de tudo, expressão de determinado modo produtivo da sociedade industrial, em vias de esgotamento. Por isso, insistir teimosa e cegamente no produtivismo econômico é ameaçar toda a vida da e na Terra, incluídos os seres humanos, colocando em grave risco a vida das gerações futuras. É impossível evitar uma catástrofe climática sem romper radicalmente com os métodos e a lógica econômica que reinam há 150 anos.

Talvez seja inclusive muito tarde para isso como atesta James Lovelock, para quem “os humanos são muito estúpidos para evitar que as mudanças climáticas impactem radicalmente sobre as nossas vidas ao longo das próximas décadas”.

Conjuntura da Semana. Uma leitura das ‘Notícias do Dia’ do IHU de 22 a 29 de março de 2010 – A análise da conjuntura da semana é uma (re)leitura das ‘Notícias do Dia’ publicadas, diariamente, no sítio do IHU. A presente análise toma como referência a revista IHU On-Line edição 322 de 22-03-2010. A análise é elaborada, em fina sintonia com o IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT – com sede em Curitiba, PR, parceiro estratégico do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

(Ecodebate, 06/04/2010) publicado pelo IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Crise climática planetária

Relatório do Painel Internacional sobre Mudanças Climáticas (IPCC) indica crise climática planetária, mas o governo estadunidense quer enfraquecer o documento, tornando-o público antes do tempo. Para o Greenpeace, os dados revelados mostram a necessidade de urgência no combate às mudanças climáticas. A versão preliminar de um dos relatórios ainda em revisão do IPCC indica que o clima da Terra está sofrendo uma transformação dramática devido às ações humanas e que seus efeitos são muito mais sérios do que o que se imaginava.

O Greenpeace questiona a intenção do governo estadunidense em tornar o relatório público antes de sua versão final, mas, ao mesmo tempo, considera que as informações instam os governos de todo o planeta a tomarem medidas muito mais incisivas para controlar as emissões mundiais de gases de efeito estufa e evitar uma catástrofe no futuro.



O processo de revisão dos relatórios do IPCC é sigiloso, restrito aos governos e a especialistas em mudanças climáticas, até o lançamento de sua versão final. "O sigilo nessa fase de revisão tem gerado relatórios consistentes e sólidos. Expor o relatório não finalizado aos céticos da ciência indica a intenção de sabotar o processo e colocar em cheque os resultados ainda preliminares do documento, uma referência para as negociações internacionais do regime de clima da Terra", afirmou Carlos Rittl, coordenador da Campanha de Clima do Greenpeace.



Apesar disso, os novos dados evidenciam claramente que as ações humanas têm um impacto significativo sobre as mudanças climáticas e que seus efeitos são muito mais sérios do que se imaginava. "Isso coloca contra a parede todos aqueles que têm responsabilidade mas que não deram nenhuma contribuição, que não assumiram nenhum compromisso para combater o problema", acrescentou Rittl.



O Greenpeace considera que, mesmo que as informações do relatório ainda estejam sujeitas a uma ampla revisão dos governos e dos cientistas, são suficientes para tornar ainda mais urgentes a adoção de medidas imediatas para combater as mudanças climáticas. "Se todos os governos do mundo não forem muito mais efetivos nas negociações internacionais, se não assumirem compromissos muito mais profundos, o planeta poderá em poucas décadas enfrentar catástrofes de enormes proporções, com perdas de milhões de vidas humanas, extinção de milhões de espécies e perdas econômicas incalculáveis", enfatizou Rittl.



Isso impõe a necessidade de maior contribuição de todos, inclusive dos países em desenvolvimento, como o Brasil. "Devemos diminuir nossas emissões e combater o desmatamento de forma sistemática e incisiva, hoje reponsável por cerca de 75% dos gases de efeito estufa que o país emite para a atmosfera".

O debate em torno da crise climática

Por Maria Luisa Mendonça

A crise climática passou a ser um dos temas centrais da atualidade e, como era esperado, há diversas interpretações e interesses em jogo no contexto deste debate. De um lado, há uma série de propostas de mercantilização de políticas ambientais, em contraste com uma análise crítica sobre razões estruturais das mudanças climáticas. Outra polêmica pode ser resumida entre uma falsa oposição de “ambientalistas” e “desenvolvimentistas”.

No âmbito dos fóruns governamentais, a discussão ganhou centralidade a partir das constatações mais recentes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) sobre os efeitos dramáticos do aquecimento global. Porém, desde a ECO-92, no Rio de Janeiro, foi criada a Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), ratificada por mais de 190 países. Neste âmbito, passaram a ocorrer reuniões multilaterais, conhecidas como Conferências das Partes (COP), sendo que a mais recente foi realizada em Copenhagen, em Dezembro de 2009.

Este espaço tem sido marcado por políticas neoliberais de privatização de bens naturais, como o chamado “Mecanismo de Desenvolvimento Limpo” (MDL), que inclui o mercado de carbono, previsto no Protocolo de Quioto. Este tipo de projeto tem beneficiado, em grande medida, grandes empresas e latifundiários, que lucram com a expansão dos chamados “desertos verdes”, por exemplo, o monocultivo de eucalipto, soja e cana. Mais recentemente, surgiu uma nova proposta deste tipo, conhecida como Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação de Florestas (REDD).

A frustração de movimentos sociais diante das posições deste fórum gerou a convocação para a Conferência Mundial dos Povos sobre as Mudanças Climáticas, em abril de 2010, em Cochabamba. O encontro, que reuniu mais de 30 mil pessoas, de 135 países, expressou a convicção de organizações sociais dispostas a colocar o tema de forma aprofundada. “O capitalismo é sinônimo de inanição, de desigualdade, de destruição. Ou morre o capitalismo, ou morre a Terra”, resumiu o presidente boliviano Evo Morales na cerimônia de abertura.

O contraste entre o conteúdo das conferências de Copenhagen e Cochabamba reflete o centro do atual debate, ou seja, é preciso reconhecer que há agentes principais destruidores e poluidores, que devem ser claramente identificados. A declaração dos movimentos reunidos na Cúpula dos Povos responsabiliza claramente as grandes empresas, governos e parte da comunidade científica, que se apropriam do discurso ambientalista visando expandir a privatização da natureza e o poder do capital.

Itelvina Masioni, dirigente do Movimento Sem Terra, explica que os camponeses são os mais afetados pelo impacto das mudanças climáticas na produção de alimentos e, ao mesmo tempo, sofrem com a expulsão de suas terras pela pressão da indústria de agrocombustíveis—uma falsa alternativa para combater o aquecimento global, já que expandem o monocultivo e a destruição ambiental. Por outro lado, a agricultura camponesa, baseada na agroecologia e na democratização da terra, representa uma real solução para a crise climática. “Temos compromisso com as gerações futuras e, por isso, é preciso pressionar os governos por ações concretas, a partir da luta local, em nossos territórios”, defende Itelvina.

O centro do debate, portanto, é a mudança do modelo econômico e do chamado “desenvolvimento”. Porém, o discurso difundido por grandes empresas poluidoras (como petroleiras, mineradoras, de agricultura extensiva, automotivas, entre outras) e popularizado pela mídia comercial coloca a crise ambiental como um problema individual. Ou seja, se todos somos culpados, ninguém tem culpa. É claro que nossas opções individuais cumprem algum papel na preservação de bens naturais, mas o foco neste ponto esconde a responsabilidade dos principais agentes da destruição ambiental.

A apropriação do discurso ambiental visando o lucro mostra que é simplista dizer que necessariamente existe uma oposição “ambientalismo / desenvolvimentismo”. O uso indiscriminado destes dois termos merece algumas considerações. Por um lado, há a ideia de “responsabilidade social”, difundida por grandes empresas que burlam regularmente a legislação ambiental e trabalhista. Para esconder práticas destrutivas, estas empresas montam projetos sociais pontuais, como forma de propaganda e também para conseguir benefícios fiscais. Na verdade, os projetos de “responsabilidade” social e ambiental premiam empresas que sistematicamente violam direitos básicos.

“Grandes empresas passaram a utilizar a questão ambiental como forma de aumentar suas taxas de lucro. No caso da energia, por exemplo, o falso discurso da escassez serve para justificar o controle sobre bens naturais, como terra e água. É preciso aprofundar este debate na sociedade, fazer o trabalho de base, e combater propostas que legitimem as falsas alternativas de grupos econômicos que procuram mercantilizar o tema das mudanças climáticas”, avalia Gilberto Cervinski, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

O discurso desenvolvimentista serve para defender grandes projetos de infraestrutura, que têm como base o monopólio sobre bens naturais e um modelo econômico centrado na exportação de produtos primários, a partir de uma demanda externa. Em alguns casos, este tipo de política é confundida com a teoria marxista de desenvolvimento das forças produtivas. Para começar, um dos fundamentos do pensamento marxista é a crítica à propriedade privada.

Em O Capital, Marx explica que uma forma de renda diferencial da terra se dá através da apropriação de recursos naturais como objetos de monopólio, que geram lucro suplementar. Segundo esta tese, o título de propriedade sobre uma parcela do globo terrestre significa que “parte da sociedade exige da outra um tributo pelo direito de habitar a terra”. Portanto, “na propriedade fundiária se inclui o direito do proprietário de explorar o solo, as entranhas da terra, o ar e, por conseguinte, o que serve para conservar e desenvolver a vida”.

Se tomarmos como exemplo os projetos “desenvolvimentistas” no Brasil, como as grandes barragens, a mineração e o monocultivo extensivo, fica claro que sua história é de devastação, violência e destituição dos meios de subsistência dos trabalhadores, com o objetivo de beneficiar grandes empresas nacionais e estrangeiras. Portanto, não podemos dizer que serviram para desenvolver o país, no sentido de trazer melhorias no padrão de vida da nossa sociedade. Estes projetos sempre favoreceram, em última instância, os interesses de grandes oligopólios e países centrais.

O estágio atual da análise sobre estas questões é singular, já que mais do que uma discussão teórica, vivenciamos concretamente os efeitos das múltiplas crises deste modelo econômico. O conceito de justiça climática, por exemplo, ajuda a difundir propostas ecológicas a partir da luta concreta dos povos por seus direitos básicos de sobrevivência. Além disso, a idéia de “bem viver”, construída por movimentos populares na Bolívia, nos mostra pistas para evitar as armadilhas de um falso debate.

Maria Luísa Mendonça é jornalista e coordenadora da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos

Fonte:http://carosamigos.terra.com.br/index_site.php?pag=materia&id=204

Cidades já consomem 70% dos recursos naturais do planeta 10/9/2010

Dados da Organização das Nações Unidas constatam que mais da metade da população mundial está nas cidades e já é responsável pelo consumo de 70% de todos os recursos que o homem retira da natureza. Até 2050, com a estimativa de que a população do planeta supere 9,2 bilhões, a Terra terá 6 bilhões de habitantes, quase 90% da população atual, vivendo no espaço urbano. Diante desses números, governos estaduais, prefeituras e comunidades precisam reconhecer o valor do capital natural (água, solo, biodiversidade). Os formuladores de políticas públicas têm razões de sobra para tentar encontrar, o mais rápido possível, soluções de combate à degradação dos ecossistemas e minimização da perda da biodiversidade.

O alerta está no relatório A Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade para Políticas Locais e Regionais (TEEB, sigla em inglês) , lançado simultaneamente no Brasil, em workshop realizado nesta quinta-feira (9) em Curitiba (PR), na Bélgica, Índia, Japão e na África do Sul. Nele, 140 especialistas das áreas de ciência, economia e política de mais de 40 países concluíram que os serviços ambientais podem impulsionar as economias locais, gerar milhões de novos empregos e melhorar a qualidade de vida nas cidades.

Segundo o diretor do Departamento de Biodiversidade do MMA, Bráulio Dias, que representou a ministra Izabella Teixeira no encontro, o relatório é importante para que os gestores públicos reconheçam o valor econômico da biodiversidade . Par ele, o documento pode ajudar na solução do impasse entre preservação ambiental e desenvolvimento econômico. Mostra (o TEEB) que os serviços ambientais têm o papel de reduzir os impactos ecológicos do desenvolvimento .

O documento reconhece e recorre a dados e exemplos para demonstrar que ecologia e economia não só podem, como devem, caminhar juntas nas políticas públicas. O relatório levanta, principalmente, a questão de valoração e impacto do uso e preservação dos recursos naturais. Os atuais níveis da pegada ecológica e social, nome que os especialistas dão aos recursos naturais necessários para que cada ser humano viva, devem ser incluídos nas contas de planejamento das economias locais. Bráulio cita como exemplos recentes enchentes e desmoronamentos no Brasil com prejuízos econômicos elevados, e bem superiores ao que seria gasto com medidas de preservação do meio ambiente.

O relatório chama a atenção em três aspectos para as quais as políticas públicas precisam estar voltada: a distribuição dos benefícios da natureza, o uso do conhecimento científico disponível e o engajamento dos gestores e das comunidades envolvidas nas ações de preservação. O relatório estuda, ainda, áreas protegidas e o aumento dos benefícios locais da conservação, e dá orientações sobre os incentivos de recompensa da boa administração de capital natural local, tais como sistemas de pagamento localmente adaptados por serviços ambientais, certificação e rotulagem.

Esse é o primeiro de uma série de cinco relatórios, que serão levados à Convenção da Biodiversidade (COP-10) em Nagoya, no Japão. Ele contribui também para o Atlas Ambiental online da Agência Europeia de Meio Ambiente, com estudos de vários esforços que já vêm sendo feitos para associar ecossistemas e a biodiversidade nas iniciativas de políticas locais. Segundo Achim Steiner, diretor executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, um dos organismos que realizam o workshop, alguns governos locais já acordaram para o problema da preservação ambiental e têm adotado as medidas necessárias, com ganhos para suas economias locais. Mas muitos ainda precisam aderir , acredita. (Fonte: Paulenir Constâncio/ MMA)


Fonte: Ambiente Brasil

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quarta-feira, 17 de junho de 2009

As crises econômica e climática se sobrepõem

As crises econômica e climática se sobrepõem


aquecimento global, crise ambiental, crise financeira global, mudanças climáticas


“Imagine um avião cuja probabilidade de chegar ao destino seja de 10%. Você embarcaria nele? Evidentemente que não…”. Stefan Rahmstorf, do Instituto Potsdam de Pesquisas do Clima, adora esta metáfora para explicar o que está para acontecer: desde o último relatório do Grupo Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), publicado no começo de fevereiro de 2007, há 90% de probabilidades de que o homem esteja na origem da transformação do clima que ameaça os grandes equilíbrios planetários.

Por trás de palavras bem escolhidas, tais como “muito provável” ou “evidências muito fortes”, o relatório do IPCC foi ao mesmo tempo claro e contundente: é inequívoca a participação humana no aquecimento global. Meses antes da divulgação do relatório, o chefe do IPCC, Rajendra K. Pachauri, adiantou que o texto terá “evidências muito mais fortes de ação humana na mudança climática que vem ocorrendo”.

A polidez das palavras para se referir a algo tão dramático se deve ao fato de que o relatório necessita ser consensuado e aprovado pelos países membros da ONU. Na época, as resistências eram ainda maiores do que hoje, razão pela qual o tom do relatório fosse atenuado.

Entretanto, passados pouco mais de dois anos, o conteúdo do relatório não apenas foi se confirmando, como se anunciam os cenários mais pessimistas e extremados, caso nada for feito. Novos estudos foram apontando para a gravidade da situação climática.

Dizer que as mudanças climáticas têm origem nas atividades humanas, significa dizer que elas têm origem “econômica”, como lembra Paulo Brack, biólogo e professor no Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. No fundo, a crise ecológica foi gerada pelos interesses econômicos, pelo modo de produção e consumo vigentes. Em entrevista especial para o IHU, Paulo Brack precisa essa afirmação: “O nível de CO2 da atmosfera aumentou em cerca de 30% nos dois últimos séculos e isso estaria ligado a atividades industriais, queima de florestas e demais atividades que geram liberação de gases de efeito estufa”.

É verdade, como afirma Ricardo Abramovay, economista e professor da Universidade de São Paulo, que “o sistema contemporâneo tem extraordinária capacidade de reduzir a pobreza absoluta” no mundo. Além disso, possibilitou enormes progressos em todos os campos. Mas, como lembra Nicolas Ridoux, o crescimento não é necessariamente progresso e a condição indispensável para um desenvolvimento justo.

Os fantásticos progressos econômicos mostram hoje seus limites tanto ambientais como sociais. A lógica econômica vigente mostra que “tem pés de barro”, diz ainda Abramovay. E isso em dois sentidos: ela foi capaz de (1) gerar um crescimento sem redução de pobreza e (2) defronta-se com a impossibilidade física de universalizar o consumo atual dos países mais ricos.

Cresce o número dos estudiosos que se juntam ao coro do IPCC para alertar que o futuro da vida no Planeta Terra corre risco e sobre a necessidade de mudanças urgentes. “O Planeta necessita que mudemos de estilo de vida”, assegura Serge Latouche, professor emérito de Economia da Universidade de Paris-Sul (Orsay). Latouche é um dos teóricos do chamado decrescimento, proposta que rechaça o crescimento pelo crescimento e a sociedade de consumo.

James Lovelock tem sido cada vez mais pereptório, para não dizer pessimista. Para ele, a mudança climática acabará com grande parte da vida na Terra durante o atual século sem que a humanidade possa fazer qualquer coisa para evitar a catástrofe. No auge de seus 89 anos, Lovelock estimou que a população mundial poderá cair dos atuais 7 bilhões para aproximadamente 1 bilhão em 2100 devido a que as pessoas disputarão os escassos recursos naturais disponíveis.

O cientista britânico, autor da Teoria de Gaia – que determina que o Planeta funciona como um sistema auto-regulado – mostra-se pessimista com as campanhas de reciclagem. Nisso, no fundo, concorda com Latouche quando este afirma que o “melhor lixo é aquele não produzido”.

Anthony Giddens, um dos sociólogos mais influentes da atualidade, concorda em que “o mundo que criamos é insustentável” e que “sabemos que não podemos continuar como estamos”, mas é mais otimista. Giddens critica o tom “apocalíptico” dispensado à questão da mudança climática e propõe uma perspectiva mais propositiva: “proponho uma reorganização fundamental do pensamento, para focar muito mais nos investimentos, para ver os lados positivos do aquecimento global. Podemos criar uma genuína economia verde, quebrar a dependência do Oriente Médio, garantir segurança energética e levar a uma vida melhor por meio dessas transformações. Dizer para os empresários que eles podem se tornar mais competitivos”.

Giddens, que acaba de lançar na Inglaterra seu novo livro – The Politics of Climate Change (A Política de Mudança Climática, Polity Press, 256 págs.) –, em que aborda o aquecimento global, diz que “o caminho para lidar com a mudança climática deve ser de ousadia, inovação, o máximo uso da tecnologia”. E isso requer novas utopias: “temos de nos preparar para pensar novamente de modo muito radical lá na frente. É claro que, agora, temos de lidar com o mundo como o vemos. Mas sou a favor de um retorno parcial a certo utopismo”.

Também o ensaísta norte-americano, Thomas Friedman, está convencido de que a salvação do Planeta está no meio ambiente. Friedman publicou em outubro passado nos EUA Hot, Flat and Crowded, e que já se encontra nas livrarias da Itália, com o mesmo título: “Quente, plano e cheio”. No livro destaca a necessidade de uma “nova revolução industrial, à qual chamamos de ET (Energy Technology) ou, se preferirmos, Geo-Greenism, revolução verde. E deverão ser os Estados Unidos quem a liderará”. Para isso, defende a passagem dos “problemas do terrorismo global da era Bush aos do aquecimento global”, para os quais Barack Obama estaria apresentando maior sensibilidade.

A novidade crucial desta quadra histórica é que nos confrontamos com diversas crises –financeira, econômica, energética, alimentar e climática – que necessitam ser enfrentadas simultaneamente. E isso nos coloca diante de uma crise civilizacional. De certa forma, tudo está em suspenso, é questionado e necessitado de reorientação ou mudança. O pensamento complexo questiona a lógica sequencial e analítica subjacente à modernidade e que alavancou a sociedade industrial. Hoje, já não podemos mais pensar em resolver primeiro a crise econômica para depois nos ocupar do aquecimento global.

O novo desenvolvimento econômico já não pode ser feito contra a natureza. Pois, como diz o ecologista norte-americano Barry Commoner, faz-se necessário “mudar o motor do desenvolvimento, fazendo-o funcionar em sintonia com o meio ambiente”. E acrescenta: “Sem recuperar o meio ambiente, não se salva a economia; sem recuperar a economia, não se salva o meio ambiente”.

Há, por conseguinte, uma crescente tomada de consciente que procura relacionar as crises econômica e climática. “A crise financeira, por pior que seja, é uma crise reversível. Já passamos por isso no passado e, mesmo que seja terrível, a economia acaba se recuperando”, lembra o físico José Goldemberg. “Mas se o clima mudar mesmo, como está acontecendo, a mudança é irreversível”, garante, apontando a diferença entre as duas crises.

“A crise climática é tão real quanto a crise econômica e certamente será muito mais longa. Não há tempo a perder. Salvar o Planeta é agora ou agora”, assevera Marcelo Furtado, diretor executivo do Greenpeace no Brasil. Por via transversa – uma assustadora crise econômica global – a economia finalmente se aproximou de temas ambientais. Há riscos enormes e decisões difíceis pela frente.

“Já deveria estar bem claro que as crises climáticas e financeiras estão intrinsecamente ligadas e tentar resolver uma e deixar a outra para depois não tem como dar certo”, lembra David Norman, diretor da Ong WWF.

A crise financeira está se mostrando adversa sobretudo para com os trabalhadores e os mais pobres, que a pagam com o desemprego, o subemprego, a fome e as incertezas quanto ao seu futuro. No entanto, a médio e a longo prazos, há indícios de que o aquecimento climático pode ser mais dramático ainda, afetando também ela de maneira mais aguda os pobres. De diversas maneiras eles podem ser aqueles que pagam não apenas o pato da crise financeira, mas também o pato da crise provocada pelo aquecimento global: fome, aumento do nível do mar, migrações, secas e tempestades cada vez mais frequentes e prolongadas, recaem com maior intensidade sobre os mais frágeis da terra. E o Brasil, alertam os especialistas, está entre os países que serão mais afetados pela crise climática.

Essa relação precisa ficar cristalizada na mente de todos, especialmente dos políticos, pois uma das vantagens desta crise econômica – além de desacreditar o discurso neoliberal – foi mostrar a relevância da política. Neste sentido, a crise financeira e econômica se apresenta como uma oportunidade singular para mudanças. Entretanto, de per si, a crise pode também servir de pretexto para acirrar ainda mais o velho.

A crise econômica e a ameaça do aquecimento global podem ser uma boa oportunidade para acelerar a chamada “descarbonização” da economia e apostar em energias limpas. Estudiosos defendem taxar as energias altamente poluentes e não renováveis, como o petróleo e o carvão, e subvencionar as energias limpas e renováveis, como uma saída.

O economista espanhol, Jaime Terceiro, autor do livro A economia da mudança climática, sem tradução para o português, insiste em que “é preciso romper o vínculo entre crescimento econômico e emissão de gases de efeito estufa. Para isso, é preciso taxar as indústrias fósseis e os produtos derivados, criar um mercado de emissões de carbono e subvencionar as energias não poluentes”. E lembra que “a crise financeira é transitória e seria um equívoco que por conta disso se esquecesse a gravidade da mudança climática”.

“Deveríamos ver a crise econômica como uma oportunidade de usar a energia de forma mais eficiente e começar a introduzir as energias alternativas. Esse é o momento onde podemos taxar o carbono, porque os combustíveis fósseis estão baratos. [...] Precisaremos fechar todas as usinas a carvão nos próximos 20 anos. Isso é 80% da solução e fará com que as curvas de emissão caiam muito rápido”, defende o físico James Hansen, um dos primeiros a alertar o mundo sobre a questão do aquecimento global.

Mas, insistimos, a possibilidade de os novos investimentos serem direcionados para a nova economia verde, não está dada automaticamente. A preocupação com a retomada do crescimento econômico pode inibir investimentos na chamada “economia verde”. Os planos de estímulo econômico que estão sendo implementados em todo o mundo para fazer frente à crise financeira poderão impor aos países um crescimento rápido das emissões de gases que provocam o efeito estufa, anulando em parte as iniciativas verdes neles incluídos. Esta é a crítica que se faz, por exemplo, ao Brasil. Não é de hoje a constatação de que o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento), que prevê gigantescas obras de infra-estrutura, não tem nenhuma ou pouca preocupação com a questão ambiental. Até agora, a resposta do Brasil à crise econômica não tem nada de verde. “Em alguns casos é ate antiverde”, constata Eduardo Viola, professor titular de Relações Internacionais da Universidade de Brasília.

Viola compara, por exemplo, as exigências feitas às montadoras brasileiras em troca dos subsídios e aquelas de Barack Obama, nos Estados Unidos, que exigiu investimentos em veículos a hidrogênio, coisa que não aconteceu no Brasil. Aqui, a redução do IPI dos automóveis se deu para não paralisar as vendas, ou seja, para manter o consumo. A mesma coisa vale em relação à política energética brasileira. Em suma, o Brasil estaria perdendo uma oportunidade singular para uma “fuga para a frente” se investisse pesadamente em fontes alternativas mais limpas de energia, como a eólica e a solar.

Ao contrário, segue investindo em fontes como os biocombustíveis, energia nuclear, e biodiesel, que são mais limpas que as energias fósseis, mas problemáticas devido aos impactos ambientais e sociais que elas provocam. Ou seja, em boa medida, elas são parte do problema e não da solução. Segue empurrando o problema para frente. Sem falar das hidrelétricas na Amazônia, projetadas em grande medida para produção de energia para a produção de alumínio e outros produtos para exportação, como relata Philip Fearnside, em entrevista ao IHU On-Line.

Essa dissociação entre a consciência geral da gravidade do problema climático e a timidez das ações governamentais, relegando para segundo momento as questões relativas à crise ambiental, também está evidente no G-20. Em sua última reunião, as ações anunciadas para enfrentar a crise financeira foram inovadoras, ambiciosas e aplaudidas mundo afora, ao passo que para combater o aquecimento global sobrou apenas um discurso breve, vago e sem objetivos. Ainda com outras palavras, a reunião realizada em Londres no começo de abril deixou claro, nos seus resultados, que não existe vontade política por parte da maioria dos governos para resolver as questões ambientais e promover o desenvolvimento sem comprometer o futuro do planeta.

Mas, a realidade atual mescla temores e esperanças, ousadias e timidezes. E como diz o economista Abramovay, “a mais importante renovação das ciências sociais contemporâneas está no esforço de integrar de maneira organicamente articulada sociedade e natureza numa mesma estrutura analítica: é o que faz a atual economia ecológica e é o que muitos economistas de esquerda, voltados apenas à ideia de que é necessário intervir para garantir o crescimento e a melhor distribuição de renda, solenemente ignoram”. Sem, portanto, desconhecer que a crise terá seus efeitos também sobre a esquerda no mundo, como alertam Fidel Castro e Giddens.

Em relação à atual crise, entendida na sua complexidade, as forças sociais que sonham com um “outro mundo possível” estão órfãs de ideias inovadoras e mais utópicas sobre a situação. Ou será que a ideia do “fim da história”, de Francis Fukuyama, entendida como aquela “fase da história em que não podemos ver nada diferente do mundo em que vivemos”, que tem seu paralelo brasileiro no “pensamento único”, não enredou as forças de esquerda no círculo de giz circunscrito ao economicismo?

Neste caso, como diz Giddens, referindo-se particularmente à esquerda que está no poder, “na ausência de um novo modo de pensar, o Estado não será capaz de garantir uma gestão mais eficaz da atividade econômica com relação ao passado”.

A consciência planetária que se torna presente através da mudança de mentalidade e de gestos de cuidado para com a Terra, são sinais de que algo novo está acontecendo. O grito da Terra e o grito dos pobres, como diz Leonardo Boff, são o mesmo grito clamando por vida e justiça. E em cada um desses gestos, a vida, apesar das forças da morte, teima em resistir e ressuscitar.

(Ecodebate, 13/04/2009) publicado pelo IHU On-line, 09/04/2009 [IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

domingo, 3 de maio de 2009

Salvar o planeta – é agora ou agora.

Em dezembro de 2009 em Copenhagen, na Dinamarca, representantes de mais de 200 países vão se reunir para chegar a um acordo sobre como salvar o clima do planeta. O Brasil tem papel importante nas mudanças climáticas, já que o país é o quarto maior emissor de gases de efeito estufa, figura entre as dez maiores economias do mundo e ainda possui recursos naturais como a floresta amazônica .

Para fazer sua parte no combate às mudanças climáticas, o governo brasileiro deve se comprometer a zerar o desmatamento da Amazônia , expandir a geração elétrica renovável e criar uma rede de reservas marinhas para manter os oceanos vivos.

Envie a mensagem abaixo ao presidente Lula. O Brasil pode – e deve – assumir a liderança na construção de um novo modelo de desenvolvimento.

Exmo. Sr. Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República

Venho, por meio desta, exigir que o governo brasileiro assuma a liderança nas negociações da 15ª Conferência das Partes da ONU, em Copenhagen, na Dinamarca e se comprometa a:

- Zerar o desmatamento da Amazônia até 2015 e apoiar a criação de fundo financeiro internacional para apoiar este objetivo (mecanismo Florestas pelo Clima);

- Garantir que pelo menos 25% da eletricidade sejam gerados a partir de fontes renováveis de energia como vento, sol, biomassa e pequenas centrais hidrelétricas até 2020 e apoiar a transferência de tecnologia entre os países;

- Transformar pelo menos 30% do território costeiro-marinho do Brasil em áreas protegidas até 2020;

Senhor presidente, independente do histórico do Brasil como emissor de gases estufa, o país deve assumir sua responsabilidade. Podemos continuar nos desenvolvendo e gerar emprego e renda sem contribuir para o aquecimento global, o maior desafio já enfrentado pela humanidade.

Salvar o planeta – é agora ou agora.


Acesse o site e cadastre-se :
http://www.greenpeace.org/brasil/participe/ciberativismo

Carta Escrita no Ano 2070

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